TDAH pode se tornar um problema de saúde crônico

23 de setembro de 2013 at 16:41

Nova pesquisa concluiu que 30% das crianças com déficit de atenção continuam apresentando o problema ao se tornarem adultas — e ainda têm um risco maior de sofrer outros transtornos psiquiátricos

Um extenso estudo americano concluiu que o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) pode se tornar um “problema de saúde crônico” capaz ainda de aumentar o risco de uma criança vir a apresentar outros problemas psiquiátricos ao longo de sua vida. Segundo a pesquisa, o TDAH na infância persiste na vida adulta em quase 30% dos casos. E, além disso, dois terços das pessoas que tiveram o transtorno quando crianças, mesmo que deixem de apresentar o problema, sofrem alguma consequência negativa do TDAH ao se tornarem

O trabalho, publicado nesta segunda-feira na revista médica Pediatrics, foi desenvolvido no Hospital Infantil de Boston, filiado à Universidade Harvard, em parceria com a Clínica Mayo, ambos nos Estados Unidos. Segundo os autores, trata-se do primeiro estudo em grande escala que olhou para os impactos do TDAH na infância e na vida adulta. A pesquisa analisou os dados de todas as crianças nascidas entre 1977 e 1982 na cidade americana de Rochester, em Minnesota – que, ao todo, foram 5.718 —, e acompanhou essas pessoas até elas terem, em média, 27 anos de idade.

A partir de informações da vida acadêmica e do histórico médico das crianças, os pesquisadores concluíram que, dos 5.718 jovens selecionados para o estudo, 367 tinham TDAH, sendo que 232 participaram de todas as fases da pesquisa. Dessas, 75% receberam tratamento para o transtorno.

Graves danos — Segundo os resultados da pesquisa, 29,3% das pessoas diagnosticadas com TDAH na infância continuaram com o problema ao se tornarem adultas. Delas, 81% apresentaram outro transtorno psiquiátrico até os 27 anos – essa prevalência foi de 47% entre os indivíduos que deixaram de apresentar TDAH quando adultos e de 35% entre um grupo de controle, composto por pessoas que não tiveram TDAH na infância. Entre os distúrbios mais prevalentes estavam abuso e dependência de substâncias tóxicas, transtorno de personalidade antissocial (psicopatia), ansiedade e depressão.

A nova pesquisa ainda revelou que, em uma escala menor, o TDAH na infância também pode aumentar o risco de morte prematura: 1,9% dos participantes (sete em 232 pessoas) com o transtorno morreu antes dos 27 anos, sendo que três deles cometeram suicídio. Essa incidência foi de 0,7% entre os indivíduos que não foram diagnosticados com TDAH quando crianças.
“O nosso estudo mostra que o TDAH é, sim, um problema sério de saúde e que tem impactos importantes em todas as áreas da vida da criança e dos adultos. Esse transtorno não é somente um comportamento irritante das crianças, e eu acho que o TDAH é frequentemente encarado dessa forma”, disse ao site de VEJA William Barbaresi, chefe da Divisão de Medicina do Desenvolvimento do Hospital Infantil de Boston e coordenador da pesquisa.
 

Seu estudo conclui que o TDAH infantil é um problema de saúde crônico. O que isso quer dizer?

O que nós mostramos em nosso estudo é que o impacto de ter TDAH na infância claramente continua na vida adulta na maioria dos casos. Nós descobrimos que apenas um pouco mais que um terço das crianças com TDAH chegam na vida adulta sem ter ao menos um desses efeitos. E isso é muito preocupante. O nosso estudo mostra que o TDAH é, sim, um problema sério de saúde e que tem impactos importantes em todas as áreas da vida da criança e dos adultos. Esse transtorno não é somente um comportamento irritante das crianças, e eu acho que o TDAH é frequentemente encarado dessa forma.

Pacientes com TDAH estão sendo tratados de maneira errada?

Nós temos muita informação sobre como diagnosticar apropriadamente o TDAH, como identificar os problemas associados ao transtorno e até as melhores formas de tratar a condição. Acredito que o problema do TDAH seja o fato de as crianças não estarem recebendo esses serviços e tratamentos de forma suficientemente consistente. E isso faz com que as consequências do transtorno sejam piores do que deveriam.

Por que o senhor acha que isso acontece?

É muito comum que as crianças abandonem o tratamento de TDAH quando os sintomas do problema diminuem. Isso é algo comum entre todas as condições crônicas, como o diabetes, por exemplo. As pessoas chegam em uma fase da vida em que não querem mais ser diferentes, não querem precisar fazer coisas que os outros indivíduos não fazem. Por isso, os pacientes tendem a abandonar os tratamentos. Porém, para algumas das doenças crônicas, como o diabetes, há diversas estratégias para conscientizar a população de que seguir com o tratamento é importante. Mas para TDAH ainda não há essa orientação. É preciso pensar nessa condição como um problema crônico e implementar estratégias que mantenham as crianças em tratamento, especialmente em fases em que os efeitos adversos do transtorno são mais preocupantes.

A que o senhor atribui o aumento do número de crianças diagnosticadas com TDAH no mundo?

O que acontece é que a conscientização sobra condição está aumentando e, com isso, também aumentam as taxas de TDAH. Na minha opinião, é algo muito bom. A verdade é que esse problema tem um impacto muito grande na vida das pessoas. Para se ter ideia do tamanho do impacto, é só aplicar os nossos achados para a quantidade de crianças que vêm sendo diagnosticadas com TDAH.

 Por que crianças com TDAH correm um maior risco de sofrer de outro transtorno psiquiátrico durante a vida?

Essa é uma pergunta ainda sem resposta.  Não sabemos se isso é uma consequência dos sintomas do TDAH em si, da forma como afeta a criança e o seu crescimento, ou então se é algo relacionado ao fator biológico. Se fosse isso, a função cerebral que determina que uma pessoa tenha TDAH poderia ser a mesma que provoca outra desordem. Mas ainda não sabemos o que explica essa associação.

Fonte: Veja